Carta zen 1 – É carma?

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CARMEM EM PARIS

Amigos,

Estou morando em Paris há cerca de 40 dias e vivendo uma mistura inesperada de emoções que sinceramente me atordoam.

Sinto-me bem nessa cidade, como se eu a conhecesse há muito tempo. Ao mesmo tempo, sinto medo, frustração e angústia.

Medo por ter deixado a vida conhecida e segura para trás. Nada do que estou vivendo agora se parece com o que já conheço.

No Brasil, eu tenho comigo um enorme poder de argumentação, já que sou psicanalista há muitos anos. Aqui, em Paris, perdi isso! Sinto medo das pequenas coisas do cotidiano. Só quem já viveu essa situação sabe o pânico que sentimos ao simples toque do telefone quando você não fala a língua de quem está do outro lado da linha.

Preciso resolver tantas coisas concernentes ao cotidiano ordinário – quando meu vocabulário se limita a meia dúzia de palavras – que, em pouco tempo, eu me vejo estressada, frustrada, envolvida em muitas emoções negativas.

Fico estagnada. Até para ir à esquina comprar uma bagette fica complicado. Tudo isso me obriga a raciocinar sobre o porquê de estar aqui. Faço um esforço para sair do lugar-comum e interpretar as coisas sob um novo ponto de vista e me pergunto: por quê? Por que resolvi vir justamente para Paris? Que motivos minha alma, ou meu desejo, teriam para querer algo com tanta intensidade a ponto de deixar pontos cegos em minha visão de mim mesma e me fazer mudar tudo de maneira tão radical? Quem é esta que mora em mim e que decide por mim, sem que eu possa usar a razão e recuar?

Será que é meu carma?

Mas, afinal, o que é o carma? Assumo que essa reflexão vai me fazer bem e me levar a colocar certos pingos nos “is”.

Sempre que penso em carma, logo o associo às leis de causa e efeito. Pensando melhor, não quero cair no erro de pensar no carma como um castigo. Isso é muito simplista e inconscientemente é um pensamento estagnante que nos embola em nós mesmos e que possui como pano de fundo a culpa.

Ora, meus erros – aquilo que realizo ou realizei de maneira equivocada no passado – foram frutos do meu livre arbítrio. Quando os cometi, eu realmente pensava que fazia a melhor escolha. Por que devo ser castigada pela minha natural ignorância?

Quando cometemos um erro, penso eu, somos como crianças em aprendizado. Estamos no jardim de infância da vida – afinal, não estamos aqui para aprender?

Então me lembro de Freud, que nos fala da compulsão à repetição. Penso que carma é a compulsão à repetição freudiana “esticada” no tempo/espaço. Há em nós um mecanismo psíquico que nos impele inconscientemente a repetir, repetir, repetir, até que se resolvam em nós as equações emocionais que trarão o amadurecimento, a sabedoria necessária e, então, as coisas param de repetir.

Bem, essa repetição pode se dar de uma forma não linear, ou seja: pode não ser tão simples perceber que estamos repetindo um padrão, que não fizemos ainda o “certo”.

Pode acontecer através de uma intersecção de fatos tão intrincada, passando de uma vida para outra, embolando-se ainda em sequelas de sofrimentos vividos, que tudo fica muito difícil de ser interpretado.

No entanto, adquirir a visão do significado do carma, a meu ver, é fundamental. Estamos colhendo os frutos daquilo que (não) fizemos no passado.

Para sermos seres completos, para adquirirmos a perfeição que estamos destinados a ser, não poderemos fazer nada “mais ou menos”. Não poderemos negligenciar a verdade. Devemos saber que a vida impor-se-á a nós com suas leis, com seus processos – doa a quem doer.

O carma é a repetição cíclica que acontece em nossas vidas, e deve ser visto como uma oportunidade de aperfeiçoamento daquilo que somos.

Partindo do princípio de que somos seres imortais e de que nosso espírito busca a perfeição em todos os planos da existência, o carma é o retorno daquilo que devemos experimentar a fim de fazermos novas escolhas, já que estamos sempre passando por novas formas de existência, galgando os ciclos do espiral eterno.

Portanto, o carma é uma necessidade. Senão, de que outra forma poderíamos nos aprimorar?

Só precisamos ter o cuidado de não considerar que o carma seja inevitável. Podemos e devemos mudar o carma, na medida em que passamos a saber que justamente ele se anuncia em função de algo que devemos aprender. Se pudermos tomar consciência e agir, abortamos o carma.

Analisar nossa história de vida e agir no sentido da mudança é libertador e contribui para darmos um passo à frente.

Quando não paramos para analisá-la de forma clara e racional, estamos sujeitos à interferência caótica do inconsciente e à criação de graves entraves e de obstáculos por parte deste que nos trazem, via de regra, muita dor.

A dor nos faz mudar e assim chegaremos de qualquer maneira ao fim do carma e ao passo à frente. Apenas será mais demorado e colecionaremos sequelas indesejáveis que dificultarão nosso caminho.

Posso pensar em posturas que nos auxiliam nesta nossa peleja:

  • Pensar positivo: tudo o que vivemos vai, inevitavelmente, nos fazer crescer;
  • Não ter medo de mudanças: todas elas serão sempre para melhor;
  • Controlar as emoções: a mente analítica nos fortalece para que possamos enxergar de quais ações devemos nos utilizar e de quais não precisamos mais. Depois que sabemos que o fogo queima, não precisamos colocar a mão nele para verificar se queima mesmo.

Em níveis mais profundos, vamos nos deparar com mecanismos de defesa que foram criados por nosso ego a fim de evitar a dor.

Ao decodificá-los, adquirimos ferramentas racionais e analíticas para lutarmos com nós mesmos e alcançarmos as mudanças que finalizarão nossos carmas.

Sendo assim, quando você se perguntar se o que você está vivendo é um carma, você terá que necessariamente responder: sim!

Tudo é carma, já que estamos presos na roda encarnatória para o aperfeiçoamento do espírito numa constante repetição a serviço da evolução natural.

Ufa, me sinto melhor! Obrigada pela reflexão, amigos. Vou lá fora comprar minhas bagettes!

Atenciosamente,

Carmem

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